O INCRIADO (1ª PARTE)


Distantes estão os caminhos que vão para o Tempo - outro luar eu vi passar na altura
Nas plagas verdes as mesmas lamentações escuto como vindas da eterna espera
O vento ríspido agita sombras de araucárias em corpos nus unidos se amando
E no meu ser todas as agitações se anulam como as vozes dos campos moribundos.

Oh, de que serve ao amante o amor que não germinará na terra infecunda
De que serve ao poeta desabrochar sobre o pântano e cantar prisioneiro?
Nada há a fazer pois que estão brotando crianças trágicas como cactos
Da semente má que a carne enlouquecida deixou nas matas silenciosas.



Nem plácidas visões restam aos olhos - só o passado surge se a dor surge
E o passado é como o último morto que é preciso esquecer para ter vida
Todas as meias-noites soam e o leito está deserto do corpo estendido
Nas ruas noturnas a alma passeia, desolada e só em busca de Deus.

Eu sou como o velho barco que guarda no seu bojo o eterno ruído do mar batendo
No entanto como está longe o mar e como é dura a terra sob mim...
Felizes são os pássaros que chegam mais cedo que eu à suprema fraqueza

E que, voando, caem, pequenos e abençoados, nos parques onde a primavera é eterna.
Na memória cruel vinte anos seguem a vinte anos na única paisagem humana
Longe do homem os desertos continuam impassíveis diante da morte
Os trigais caminham para o lavrador e o suor para a terra
E dos velhos frutos caídos surgem árvores estranhamente calmas.


VINICIUS DE MORAIS


O INCRIADO (3ª PARTE)


Se alguém não devia sofrer eu não devia, mas sofro e é tudo o mesmo
Eu tenho o desvelo e a bênção, mas sofro como um desesperado e nada posso
Sofro a pureza impossível, sofro o amor pequenino dos olhos e das mãos
Sofro porque a náusea dos seios gastos está amargurando a minha boca.

Não quero a esposa que eu violaria nem o filho que ergueria a mão sobre o meu rosto
Nada quero porque eu deixo traços de lágrimas por onde passo
Quisera apenas que todos me desprezassem pela minha fraqueza
Mas, pelo amor de Deus, não me deixeis nunca sozinho!

Às vezes por um segundo a alma acorda para um grande êxtase sereno
Num sopro de suspensão a beleza passa e beija a fronte do homem parado
E então o poeta surge e do seu peito se ouve uma voz maravilhosa,
Que palpita no ar fremente e envolve todos os gritos num só grito.

Mas depois, quando o poeta foge e o homem volta como de um sonho
E sente sobre a sua boca um riso que ele desconhece
A cólera penetra em seu coração e ele renega a poesia
Que veio trazer de volta o princípio de todo o caminho percorrido.

Todos os momentos estão passando e todos os momentos estão sendo vividos
A essência das rosas invade o peito do homem e ele se apazigua no perfume
Mas se um pinheiro uiva no vento o coração do homem cerra-se de inquietude
No entanto ele dormirá ao lado dos pinheiros uivando e das rosas recendendo.

Eu sou o Incriado de Deus, o que não pode fugir à carne e à memoria
Eu sou como velho barco longe do mar, cheio de lamentações no vazio do bojo
No meu ser todas as agitações se anulam - nada permanece para a vida
Só eu permaneço parado dentro do tempo passado, passando, passando...



VINÍCIUS DE MORAIS

O INCRIADO (2ª PARTE)


Ai, muito andei e em vão... rios enganosos conduziram meu corpo a todas as idades
Na terra primeira ninguém conhecia o Senhor das bem-aventuranças...
Quando meu corpo precisou repousar eu repousei, quando minha boca ficou sedenta eu bebi
Quando meu ser pediu a carne eu dei-lhe a carne mas eu me senti mendigo.

Longe está o espaço onde existem os grandes vôos e onde a música vibra solta
A cidade deserta é o espaço onde o poeta sonha os grandes vôos solitários
Mas quando o desespero vem e o poeta se sente morto para a noite
As entranhas das mulheres afogam o poeta e o entregam dormindo à madrugada.

Terrível é a dor que lança o poeta prisioneiro à suprema miséria
Terrível é o sono atormentado do homem que suou sacrilegamente a carne
Mas boa é a companheira errante que traz o esquecimento de um minuto
Boa é a esquecida que dá o lábio morto ao beijo desesperado.

Onde os cantos longínquos do oceano?... Sobre a espessura verde eu me debruço e busco o infinito
Ao léu das ondas há cabeleiras abertas como flores - são jovens que o eterno amor surpreendeu
Nos bosques procuro a seiva úmida mas os troncos estão morrendo
No chão vejo magros corpos enlaçados de onde a poesia fugiu como o perfume da flor morta.

Muito forte sou para odiar nada senão a vida
Muito fraco sou para amar nada mais do que a vida
A gratuidade está no meu coração e a nostalgia dos dias me aniquila
Porque eu nada serei como ódio e como amor se eu nada conto e nada valho.

Eu sou o Incriado de Deus, o que não teve a sua alma e semelhança
Eu sou o que surgiu da terra e a quem não coube outra dor senão a terra
Eu sou a carne louca que freme ante a adolescência impúbere e explode sobre a imagem criada
Eu sou o demônio do bem e o destinado do mal mas eu nada sou.

De nada vale ao homem a pura compreensão de todas as coisas
Se ele tem algemas que o impedem de levantar os braços para o alto
De nada valem ao homem os bons sentimentos se ele descansa nos sentimentos maus
No teu puríssimo regaço eu nunca estarei, Senhora...

Choram as árvores na espantosa noite, curvadas sobre mim, me olhando...
Eu caminhando... Sobre o meu corpo as árvores passando...
Quem morreu se estou vivo, por que choram as árvores?
Dentro de mim tudo está imóvel, mas eu estou vivo, eu sei que estou vivo porque sofro.



VINICIUS DE MORAIS

AUSÊNCIA


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.


No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.


Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.


Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.


Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.


E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.


Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.




Vinícius de Morais

DEMARCAÇÕES TARDIAS


Vais mesmo se purificar.
(Porque é assim que deve ser com todo amor que morre antes de nascer).
Quanto a mim, observarei, inerte.
Vais mesmo contemplar a aurora.
Eu nada mais posso.
E, sozinha, pressinto o crepúsculo.

Sonhei muito e pensei que fora tudo em vão
Até que vi em teus olhos uma curva, como de uma sobrancelha.
Podes não ter chorado por mim.
Mas, lá no fundo, está dançando a sombra do que fui.
E não fui como ninguém.
E não sou como nada.
Danço rudemente.
A dança das horas vermelhas:
Selvagem, como certas luzes.

Espero que entenda que não pude ver os teus pés
E apenas por isso, me joguei de qualquer jeito.
Jamais houve harmonia nos meus passos:
Eu dançava com amor de desejo.
A minha dança, aliás, era o desejo de todos os tempos
E na dança do meu corpo havia o maior dos desejos de amor.
Pretendia tocá-lo de um jeito que eu pudesse compreender as reações de tua alma.
Mas caí.
E então vi, nos teus olhos, toda aquela mágoa profunda.

Alma bela e rancorosa.
Alma hermafrodita.
Alma, cujo orgulho espatifou-se na queda alheia.
Alma que ficou mais dolorida do que o corpo no chão.




Beijei-te com medo e reservas que ainda hoje não compreendo.
Ouvi uma polca e dancei cinco valsas.
E nem sei por que ainda ouso tanto.
Faz anos que te tornaste incapaz de crer no que ouves,
Bem como te recusas a escutar o que vês.
E ainda que visses por mim, não entenderias.




Que podes saber da sede que sinto por todos esses anos?
De águas tuas,
De sal,
De absinto,
De espera,
De esperança,
De vontade,
De transcender.
A razão.

Veneno de dor,
Veneno de dores.
Veneno de águas doces de uma espera amante...





Tens mesmo que se purificar.
Mas eu? Que faço? Que faço de teu cheiro?
De mim, pois te quero?
Que faço de ti e dessa sombra que dança?
Que faço do teu gosto que ainda sinto?
Suspiro e me encolho de vergonha:
Não sabes tudo o que eu quis.
E sou mesmo assim: impuríssima.
Tenho trechos do teu corpo em minhas mãos e noções absolutamente claras tuas,
Todas em minha boca.
Perfume teu, que carrego em toda parte,
Cobrem os meus dias de tormento,
Trazendo a visão do que jamais pude ter.





Corpos que de ti tomei emprestado, percorrendo trilhas
Encontrando caminhos que julgava teus,
Que dizia teus,
Que queria teus.
Gritando, pedindo, chorando
Gemendo e chamando, teu único nome.
Se me ouviste, quem soube?




Nada pode um amor como o meu,
Infinito em errar e sorrir,
Contra um amor como o seu, múltiplo de dias e noites,
Todos cobertos de silêncios.
E de muitas palavras apenas ditas nos olhos
E mesmo assim, negadas.
Negadas para sempre.




Eu poderia aceitar todas as coisas.
Mas só consigo arrancar a minha vida das tuas mãos.
A minha vida que tem sido
Toda essa alegria,
Todo esse cinismo,
Toda essa ironia,
Todos esses erros,
Toda essa ausência,
Toda essa arrogância,
Toda essa separação,
Toda essa interrupção abrupta.
Toda essa procrastinação do amor que teria feito.




Como bem vês, não posso mesmo me purificar. Caríssimo.
Mas para ti, este haverá de ser o melhor dos remédios.
Para ti somente que é o amor perfeito mais que perfeito.
Amor que nasceu para vencer os obtusos caminhos.
Mas que um dia desistiu e jamais se arrependeu.

Esta é a trilha dos amores que nasceram e morreram sufocados,
Seja por espinhos,
Seja pelo tempo,
Seja pelas pedras,
Seja pela vida.




E é exatamente por isso, meu amado, que deves te purificar.

Purifique-se por ti.
Purifique-se também por mim.



POEMA SEM PÉS


Horas vacilantes vivi à espera do eterno recado da aurora...
E para quê?
Nada parece surgir quando precisamos. Afinal, gênese é gênese.
Mas todo entrelaçamento brutal de horrores incompreendidos pode receber,
Simplesmente, o nome de "desencanto".
Ninguém se importa e sofremos à vontade.
Rotina nada mais é do que morte antecipada. Morte inebriante. Morte sísmica.
Todos querem pensar que a manhã poderia pertencer.
E pertence, de fato. Caso alguém possa suportar a imagem nefanda de um corpo qualquer que o seu não dominou...
Sigo errante pelo mesmo caminho que me chamou.
Que fixou nos meus pés a sua planta.
Que insistiu tanto a ponto de não mais poder me ignorar:
Fui feita poeira sua no mesmo instante em que tomei consciência de que meus já não eram os pés.
Lágrimas amargas que o vento secou e o filho não viu.
E nem percebeu o amado, castigado pelo sol e pela terra endurecida,
Que restava apenas um pai cansado e mudo.
É grande a minha dor e vivo.
Secando, emudecendo... E precisando trabalhar.
Deveria, pelo menos, existir mais de um jeito de se falar baixo,
De nascer e morrer sem amar
De escolher viver somente vidas já vividas.
Tantos lugares há para se percorrer em apenas uma estrada!
E isso não deixa de ser uma forma simples de tristeza.
Porque corro atrás da canção, procurando, indagando, perscrutando.
Mas são tantas e eu tão pouca.
Deve ser por isso que cada vez que a encontro surpreendo-me afônica
E é até bom que não haja mesmo o que dizer.
A tristeza despensa e a tarde vem logo atrás em queda estranha.
Traz o peso e o desejo de um olhar nítido, sertanejo.
Sertaneja a minha mágoa e a minha dor,
Que eu vou sertanejando, sem amor e sem pés.
Porém sei que o caminho ainda está aqui. Em algum lugar.
Sombras que vejo ao longe nunca se aproximam
E se chegam ao seu lugar, foram vendidas às reminiscências do deserto.
Por que essa desvantagem de jamais ter sido comprada?
Nem mesmo pela inveja.
A verdade, é que jamais me santifiquei,
Embora tenha deixado minha alma à venda em vários lugares.
Em algum lugar, pelo menos,
Brilhando confusa, um brilho perdido, cínico, eterno. Um brilho fashion.
Talvez por isso a suprema miséria não tenha se dignado a me destinar
Sequer um brevíssimo olhar de sua modéstia implacável.
Não me tornei uma renegada, mas ainda serei,
Se me derem oportunidade de amanhecer em campos diversos.
Tenho chances.
Sobrevivo contrafeita.
E, certamente, já devo ter amado toda a minha cota.


CÁRCERE


Ás vezes a vida cospe.
Eu gostaria de estar muito longe!...
Mas perto o suficiente para vê-lo cair
(A queda é a coisa mais fascinante).

Se sentes já não podes esperar
E se esperas, sinto muito se sentes...
Psiu!...
Tente ficar quieto.
Mergulhe em mim a sua angústia mais desesperada
Aquela que ninguém viu ou sabe
E que somente eu despertei
E também ensinei a causa e expliquei a razão
Posso encerra-la no silêncio e destruí-la com o meu grito.
Mas, por favor, não diga jamais que não sei tratar de um prisioneiro do meu sexo.