DEMARCAÇÕES TARDIAS


Vais mesmo se purificar.
(Porque é assim que deve ser com todo amor que morre antes de nascer).
Quanto a mim, observarei, inerte.
Vais mesmo contemplar a aurora.
Eu nada mais posso.
E, sozinha, pressinto o crepúsculo.

Sonhei muito e pensei que fora tudo em vão
Até que vi em teus olhos uma curva, como de uma sobrancelha.
Podes não ter chorado por mim.
Mas, lá no fundo, está dançando a sombra do que fui.
E não fui como ninguém.
E não sou como nada.
Danço rudemente.
A dança das horas vermelhas:
Selvagem, como certas luzes.

Espero que entenda que não pude ver os teus pés
E apenas por isso, me joguei de qualquer jeito.
Jamais houve harmonia nos meus passos:
Eu dançava com amor de desejo.
A minha dança, aliás, era o desejo de todos os tempos
E na dança do meu corpo havia o maior dos desejos de amor.
Pretendia tocá-lo de um jeito que eu pudesse compreender as reações de tua alma.
Mas caí.
E então vi, nos teus olhos, toda aquela mágoa profunda.

Alma bela e rancorosa.
Alma hermafrodita.
Alma, cujo orgulho espatifou-se na queda alheia.
Alma que ficou mais dolorida do que o corpo no chão.




Beijei-te com medo e reservas que ainda hoje não compreendo.
Ouvi uma polca e dancei cinco valsas.
E nem sei por que ainda ouso tanto.
Faz anos que te tornaste incapaz de crer no que ouves,
Bem como te recusas a escutar o que vês.
E ainda que visses por mim, não entenderias.




Que podes saber da sede que sinto por todos esses anos?
De águas tuas,
De sal,
De absinto,
De espera,
De esperança,
De vontade,
De transcender.
A razão.

Veneno de dor,
Veneno de dores.
Veneno de águas doces de uma espera amante...





Tens mesmo que se purificar.
Mas eu? Que faço? Que faço de teu cheiro?
De mim, pois te quero?
Que faço de ti e dessa sombra que dança?
Que faço do teu gosto que ainda sinto?
Suspiro e me encolho de vergonha:
Não sabes tudo o que eu quis.
E sou mesmo assim: impuríssima.
Tenho trechos do teu corpo em minhas mãos e noções absolutamente claras tuas,
Todas em minha boca.
Perfume teu, que carrego em toda parte,
Cobrem os meus dias de tormento,
Trazendo a visão do que jamais pude ter.





Corpos que de ti tomei emprestado, percorrendo trilhas
Encontrando caminhos que julgava teus,
Que dizia teus,
Que queria teus.
Gritando, pedindo, chorando
Gemendo e chamando, teu único nome.
Se me ouviste, quem soube?




Nada pode um amor como o meu,
Infinito em errar e sorrir,
Contra um amor como o seu, múltiplo de dias e noites,
Todos cobertos de silêncios.
E de muitas palavras apenas ditas nos olhos
E mesmo assim, negadas.
Negadas para sempre.




Eu poderia aceitar todas as coisas.
Mas só consigo arrancar a minha vida das tuas mãos.
A minha vida que tem sido
Toda essa alegria,
Todo esse cinismo,
Toda essa ironia,
Todos esses erros,
Toda essa ausência,
Toda essa arrogância,
Toda essa separação,
Toda essa interrupção abrupta.
Toda essa procrastinação do amor que teria feito.




Como bem vês, não posso mesmo me purificar. Caríssimo.
Mas para ti, este haverá de ser o melhor dos remédios.
Para ti somente que é o amor perfeito mais que perfeito.
Amor que nasceu para vencer os obtusos caminhos.
Mas que um dia desistiu e jamais se arrependeu.

Esta é a trilha dos amores que nasceram e morreram sufocados,
Seja por espinhos,
Seja pelo tempo,
Seja pelas pedras,
Seja pela vida.




E é exatamente por isso, meu amado, que deves te purificar.

Purifique-se por ti.
Purifique-se também por mim.



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