A QUEDA DA DEUSA


Porque são muitas as sombras que ainda hoje brilham em mim,
Caminharei indefinidamente, sem encontrar o que procuro.
E se encontrar, também o perderei nesta vida,
Pois eu sempre sigo os rastros de imperfeição.
E sinto o inexplicável cheiro das coisas que não conheço bem.
Faz muito tempo que a minha carne foi dilacerada e a minha alma retorcida.
Mas minha aparência certamente te enganará.
E isso, por várias gerações.
Choro pelos tempos perdidos e pelas horas esquecidas.
Mas o meu sorriso é alguma coisa terrível
E sempre irá confundí-lo, pois acreditará nele.

Verme...
Diante do qual tenho a cinérea obrigação de me curvar
Para contemplar conquistas, méritos e filosofias
Herdeiro desprezível de uma herança firmada em sangue
E exposta num madeiro maldito...
Entendo, perfeitamente, que você não é como eu.
Um anjo perdido num mundo vil.
Eu, demônio num universo enganado.
Minha insanidade não é a histeria e, sim, a aquiescência.
A tolerância.
O anonimato.

Por esses e outros motivos, sinto tanto prazer quando o erro, o engano e a vileza
São capazes de te conduzir a algum lugar.
Que levam sua alma aonde ela esteja abatida, pusilânime.
Descontrolada, enfim, pelo sabor de qualquer beijo:
O meu beijo da morte.
Rendida à imagem de curvas que eu produzi para o meu deleite.
Ninguém vê que elas nem sempre são belas.
Mas sim, capazes.
Afinal, a sedução destrói a sanidade das muitas veias.
E estas, quando se acalmam, fingem te remeter a um lugar seguro.
Ao sono tranquilo e satisfeito:
E nesta hora, você imagina tudo ter conquistado.
É o precioso momento em que a ignorância se instala em seu desvalido coração.

Às vezes, é uma pena que não possa mesmo entender nada a respeito do veneno, do vício,
Do estado servil a que um corpo pode chegar.
Portanto, se estiver ao seu alcance,
Tente permanecer inexpugnável.
Reforce com esmero suas fronteiras.
Vigie.
Eu sempre encontro muitos outros caminhos.
Respeito o perigo dos atalhos, pois,
Apenas uma brecha será o suficiente para que me possua, para sempre.
E, desta vez, destruirei tudo o que tem sido tão perfeito.
Ensinarei e me aprenderá.
Direi e me acreditará.
Sempre sei o melhor caminho, pois reconheço perfeitamente a lama.
E quando ando, sou também capaz de me arrastar pelo chão.
Você não vai saber mesmo a diferença.
E é assim mesmo que vivo.
É esta a minha maneira de pertencer a este mundo tão lindo
E que jamais criei,
Onde ninguém parece acreditar nas coisas que a poeira e a água costumam esconder.
E, se porventura, pensa me atirar algumas pedras, deixe-as apenas cair.
E observe.
E saiba: Este é o verdadeiro estrago,
E a verdadeira mancha.
Afinal, quem prefere conhecer o real estado de suas próprias vidas?

Espero que entenda:
Possuirei você é a minha sentença.
Aniquilarei sua virtude,
Pois já é tarde para ainda se alimentar de tamanha ilusão,
De coisas que não existem, que jamais existiram,
De realidades absurdas demais.
Farei com que perceba o caminho por onde anda em círculos tão exatos.
Mas que, apesar disso, ainda não aprendeu a reconhecer
Já que não costuma considerar seriamente as arestas,
Nem a linha do tempo ou do arbusto.

Entenderá claramente que muitas foram as pedras,
Pouca a sombra
E que houve vários tipos de músicas nos ventos.
As flores não eram assim tão bonitas
E nem as rosas tão perfumadas.
E que sempre haverá mais espinhos que água.
Os cactos, aliás, nem sempre foram encontrados somente nos lugares áridos.
E, sobretudo, o mais importante:
Que as coisas ruins não provocam apenas dor ou angústia
E que a dor nunca foi, necessariamente, um mal.

Na manhã mórbida, receberei a sua alma
Sedente de esclarecimentos.
Reconheça: Somente eu te conduzirei à alva.
A alva que deseja por toda sua existência,
E que somente eu posso oferecer, por ter me sujado tanto.
Por ter provocado todos os pecados de um corpo.
Por trazer à luz a concupiscência.
Por ter dito as palavras impublicáveis.
Por fazê-lo arder num fogo sem chamas.
Por aprisionar o seu coração entre as pernas.
Por matá-lo vivo
E por fazê-lo viver como um morto.
Apenas por mim.
Para mim.

Ninguém jamais pertenceu a alguém,
Mas eu tenho sido a vida em você.
Eu mesma, que te introduzi o espírito da criação.
Que permito que veja apenas as retas planas de um amor suavizado.
Que escondo o seu rastro
(Que segue sinuoso por entre os vales tenebrosos).
Você, que não conhece a escuridão.
Você, que vê somente a luz equivada de enganosos raios de sol.
Você mesmo, que me amará para sempre,
Pois me tornei o seu lado:
Sou a obscuridade terrível de sua própria alma
E carrego as marcas do seu eu mais improvável.

Não conseguirá se livrar do meu cheiro.
A lembrança de minha carne será seu cárcere e seu túmulo,
Pois trago em mim as coisas que você renegou por causa do medo
E vivo a vida que jamais poderia viver em você mesmo.
Sou sua mulher
A mulher de sua vida
A mulher eterna
A mulher amante
A mulher perdida
A mulher dentro de cada homem
A mulher que reina em todos os tempos.

1 comentários:

Anônimo disse...

Puxa! Legal. Gostei. De quem é mesmo?

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